Gisberta,
Compreendeste bem o caráter da nossa guerrilha ao reconhecer as questões sócio-históricas que atravessam o contexto público-privado da colonização que trazemos à cena, pois que ainda não superada ou vencida. Assim foi meu nascimento, querida. O distanciamento entre os corpos na representação política clássica e a impessoalidade burocrática da política moderna, em nada correspondem ao anonimato que pretendemos em nosso romance, embora nos pareça interessante que a institucionalização desses modelos tenha provocado a própria ruína do poder instituído, e as expressões artísticas correspondentes. Por ora, nos resta o paradoxo inerente à desconstrução que pretendemos, colocado pelos limites da linguagem, em qualquer discurso. Eis nossa tragédia, querida, não buscaremos uma nova verdade.
A expressão pública dos afetos historicamente condenados à esfera íntima, ou mesmo as questões sociais que vêm provocando conflitos épicos em nosso romance, não deixariam de revelar comportamentos padronizados, nessa zona intermediária. É o que chamamos de declínio da flutuação, em plenos tempos de melancolia. Os novos limites experimentados pela aproximação de esferas tradicionalmente opostas não poderiam deixar de trazer questões éticas pertinentes, sobretudo, no âmbito da cultura digital. Atravessamentos dessa natureza haveriam de causar, também, certa polêmica, na medida em que acabam por levantar temas velados, como a violência sexual, o aborto e os crimes católicos, ainda que sob o tom confessioanal de Tereza, a filósofa1. Caminharemos juntas pela bifurcação contemporânea da política e da afetividade, e é apenas por não tratarmos de uma hierarquia estrutural, que não cairemos em uma espécie de nepotismo inevitável.
Andava a me questionar sobre as abordagens individualistas do romantismo e da liberdade, até mesmo da razão existencialista de Simone2, das bandeiras forjadas sob o véu de uma bondade duvidosa, como nos mostrou o tríplice lema da Revolução Francesa, que acabou por influenciar os nossos meios de produção, desde a economia até a arte. Disso teria decorrido, como bem disseste, o mito da miscigenação brasileira e de uma suposta identidade nacional, ainda que heterogênea, legitimada pelos heróis nossos de cada dia, seja nos romances de Jorge3, que trouxeste gentilmente, ou na história político-partidária do nosso país, especialmente, na ascensão e na crise da esquerda. O que temos, agora, é uma revolução molecular, a revolta das minorias que gritam como vozes, por vezes, ressentidas, o que poderia nos levar, como me alertaste, a tiranias equivocadas e ao mau uso do poder. Diante disso, não me assusta que o exercício da liberdade que desejamos venha reproduzindo, entre as pessoas, a mesma lógica de disputa do mercado liberal. Haverá um tempo-espaço em que poderemos conceber a prática comum da liberdade, em um Estado Livre, à maneira de Espinosa?
Te pareço mais dura, querida? Pois a impressão é falsa. Guardei a ternura de Guevara, sempre acreditei que não haveria revolução social sem experiência amorosa, que o amor não é tema restrito ou decadente, ainda em tempos de capitalismo, esquizofrenia e fragmentos globais. Buscaremos a abordagem ampliada de uma ecologia profunda, da qual fará parte a humanidade e as outras espécies sufocadas pelas ambições do seu autocentramento, o amor como a expressão mais potente da alteridade. Tampouco esse afeto estaria livre de uma revaloração moral, como bem nos lembrou, o amigo do nosso amigo, quem nos ama não menos nos limita4. É preciso aprender a desamar, às vezes, querida, ainda que amorosamente, pois costumam ser fatais os egos apaixonados.
Sabia que tentaram, por repetidas vezes, calar-me, querida, confinar-me em uma posição absoluta? Fizeram-me uma leitura reduzida, como mulher e como puta. Não compreendem que não se trata mais disso, que não sou nem uma coisa nem outra, sou apenas um devir, um estado de espírito e de corpo, que se revela a cada nosso encontro com o outro? E por que haveria de incomodar tanto essa palavra, p-u-t-a-p-u-t-a-p-u-t-a? Ela volta como o tapa na cara outrora prometido por um guarda oficial, uma ameaça camuflada de defesa, aos papéis da punição e da vigília. Se nada poderia saber das bruxas, as virgens, como escreveu, certa vez, o homônimo da nossa amiga M., em uma literatura desqualificada pela academia e pela igreja, o que poderia saber os rapazes de família sobre a ética das putas, senão sob uma ótica pontual e perversa, uma moral oportunista e uma imaginação pornográfica que não apenas nos fere, como em nada representa o nosso desejo? Eles haveriam de reivindicar questões que lhe são convenientes, como o status social e a propriedade privada.
Pois não me calarei, querida. Escrevo-te durante a fuga que fui capaz de criar em minha rotina operária, a alegre criatividade que temos trocado em nossas tardes de chocolates e chás. Essa produção que nos anima, além da apropriação capitalista do trabalho, é a mesma que nos convida ao silêncio e à pausa, às sensações de prazer e delírio. Reforço que isso nos levará a uma nova est/ética, na qual haveremos de renunciar aos nossos próprios autores e, com alguma leveza, dançar diante as máscaras de poder que se deformam a cada riso nosso, como no carnaval e no realismo grotesco.
Querida, se a linguagem é traiçoeira, escrever não é pecado, nem será um privilégio de gênero. Será que, do mesmo modo que mataste T., à potência e impiedade de Nietszche, também precisarei matar M., ou algo que nela me detém? Lembrei-me que, para escrever, Virgínia5 também tivera que matar alguns fantasmas.
Receba as minhas palavras de mel e pimenta.
Venuska
10 de abril de 2014.
1Tereza Filósofa, anônimo erótico do século XVIII
2Simone de Beauvoir
3Jorge Amado
4Rircardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa
5Virgínia Wolf
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