Marx consegue dar conta do século 21?
RESUMO
As recentes crises financeiras mundiais e as transformações no
comércio, na produção e no mercado de trabalho põem à prova o
marxismo, teoria que vicejou nos séculos 19 e 20 para ter sua morte
(ou crise) decretada na virada do século 21. Livros aproximam a
economia atual da era vitoriana, que inspirou "O Capital".
JOAQUIM TOLEDO JR.
ilustração FELIPE COHEN
EM COMENTÁRIO publicado em 8 de agosto de 1853, o correspondente
internacional do "New York Tribune" Karl Marx (1818-83) concluía que o
desdobramento necessário do colonialismo britânico no subcontinente
indiano seria o cumprimento de duas missões: "uma destrutiva, a outra
regenerativa -aniquilar a velha sociedade asiática e estabelecer os
fundamentos materiais da sociedade ocidental na Ásia".
À luz das sensibilidades contemporâneas, a afirmação surpreende pela
aparente defesa do sistema colonial do século 19 -fundado em relações
comerciais impostas pelo poder de intimidação da esquadra inglesa,
como o próprio Marx apontou em seus artigos sobre os britânicos na
China.
Surpreende também a aparente confiança nos benefícios da presença
britânica na Índia: a imposição de unidade política ao subcontinente
("a primeira condição para sua regeneração"), sua inserção no circuito
comercial europeu (que o salvaria de sua "posição isolada, o motivo
maior de sua estagnação"), a construção de ferrovias, linhas
telegráficas e sistemas de irrigação, o estabelecimento de
indústrias.
Marx saudava, ainda que sem ilusões, a incubação de um processo de
modernização que, embora fosse do interesse dos colonizadores, não
deixaria de beneficiar os colonizados.
Apesar de essa regeneração ainda não estar visível em meio às ruínas
da sociedade indiana tradicional, para Marx, no entanto, ele "já havia
começado". Um aparente escorregão daquele que é, muito provavelmente,
o maior crítico da modernidade capitalista: confiar em benefícios
colaterais de uma relação desigual de exploração e apostar na força
progressista da "modernização capitalista".
FILHO REBELDE Essa ambiguidade é prova de que a obra de Marx é
manifestação do que se convencionou chamar de "dialética da
modernidade", da qual o próprio pensador e a tradição que fundou
oferecem a teoria mais completa e a crítica mais incisiva.
Filho rebelde do liberalismo e do iluminismo europeus, o marxismo tem
oferecido nos últimos 160 anos o instrumental teórico mais sofisticado
para a compreensão da natureza contraditória da sociedade moderna.
Como lembra o sociólogo sueco Göran Therborn ["From Marxism to Post-
Marxism?", Verso Books, 208 págs., R$ 37], o marxismo sempre afirmou
os traços progressistas do capitalismo, da industrialização e da
urbanização, enquanto denunciava a "exploração, a alienação, a
ubiquidade da forma mercadoria, a instrumentalização das relações
sociais, a falsa ideologia e o imperialismo" inerentes ao processo de
modernização.
Repensar o marxismo hoje pressupõe atualizar essa interpretação
crítica da sociedade capitalista contemporânea em dois registros,
antagônicos mas complementares: reconhecer e ampliar os avanços
tecnológicos, culturais, políticos e sociais que acompanham o
desenvolvimento econômico capitalista -ou sobrevivem a ele- e seus
efeitos destrutivos.
ESPAÇO GLOBAL Para Therborn, o marxismo precisa dar conta de uma
dimensão tradicionalmente marginal no próprio Marx e no marxismo em
geral: o espaço do processo (desigual) de acumulação capitalista. Não
é de hoje que esse é um espaço global, como já notaram Marx e Engels
(1820-95) em seu "Manifesto Comunista" (1848); mas a conectividade
global contemporânea é de uma densidade sem precedentes.
O espaço socioeconômico, cultural e geopolítico do século 21 é
"radicalmente diferente daquele do século 20", que foi, acima de tudo,
o último século eurocêntrico. O cenário geopolítico do século 21, por
sua vez, é mais aberto e descentralizado, e o poder militar norte-
americano, hegemônico desde o desfecho da Segunda Guerra Mundial
(1939-45), está hoje em descompasso com a emergência de potências
econômicas, na Ásia mas também na América Latina, e com o surgimento
de uma "nova rede de Estados nacionais" e a intensificação das
relações sul-sul.
CAPITALISMO LIBERAL Essa reconfiguração, sinal da diminuição das
disparidades de influência política e força econômica entre regiões e
nações, convive, no entanto, com o aumento global da desigualdade de
renda e com a desarticulação da classe trabalhadora, na qual não só a
teoria como a prática política marxista haviam depositado suas
esperanças. Nesse sentido, o que parece que vivemos nesse começo do
século 21 é um retorno ao capitalismo liberal do século 19.
Para Fredric Jameson, a crise atual pede uma releitura de "O
Capital" (1867), a grande obra teórica de Marx. Em seu trabalho mais
recente, "Representing 'Capital' - A Reading of Volume One" [Verso
Books, 176 págs., R$ 55,70], o teórico norte-americano remexe as
cinzas desse que é sem dúvida um dos maiores feitos intelectuais de
seu século e investiga duas de suas dimensões fundamentais. Uma é
formal -entender como Marx consegue oferecer uma representação
(teórica, mas que lança mão de recursos literários de figuração, a que
Jameson chama "protonarrativos") da "totalidade do sistema
capitalista".
"O Capital" resultaria de um "tour de force" de composição não muito
diferente daquele que animou o projeto da "Comédia Humana" de Honoré
de Balzac (1799-1850): representar, com os meios limitados da
exposição teórica na forma de um quase "tratado" (e de sua prima-irmã,
a narrativa realista), um sistema em que cada uma das partes remete a
todas as outras, e na qual qualquer ponto pode ser tomado como início
ou como fim. Da mesma forma, o escritor francês procurou retratar, com
seu conjunto de romances, a totalidade da complexa sociedade francesa
da Restauração.
Segundo a leitura provocativa de Jameson, "O Capital", como forma,
precisa enfrentar o desafio de oferecer uma visão total de processos
que aparecem, na experiência social, fragmentados. O argumento
progride segundo a resolução parcial de dilemas ou contradições
específicas, de forma potencialmente mais clara, o que por sua vez
resulta na expansão do próprio objeto -o capital.
DESEMPREGO A segunda dimensão fundamental de "O Capital" é
socioeconômica: para Jameson -e a afirmação, ainda que questionável,
não podia ser mais atual- "O Capital" é um livro sobre o desemprego e,
mais especificamente, sobre como o desemprego é "estruturalmente
inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a
própria natureza do capitalismo".
A constatação joga a categoria de exploração econômica no centro do
palco -em prejuízo, no entanto, da categoria política de dominação: a
classe trabalhadora global contemporânea, que em sua precariedade e
vulnerabilidade lembra justamente a miséria dos trabalhadores da
aurora da revolução industrial, são os "portadores de um novo tipo de
miséria histórica e global" que comprovam o caráter estrutural do
desemprego e do emprego precário no capitalismo.
Haveria uma possibilidade promissora de mudança teórica que acompanha
a reinterpretação dessas "populações perdidas" em termos não de
dominação política, mas de exploração econômica. Uma releitura de "O
Capital" nesses termos nos força a renovar o compromisso com a
"invenção de um novo tipo de política transformadora em escala
global", para além das tentativas, de mitigação dos efeitos perversos
do capitalismo.
ESPAÇO CONSTRUÍDO Para David Harvey, no entanto, em "The Enigma of
Capital" [Oxford University Press, 304 págs., R$ 37,90], a crise atual
do capitalismo tem raízes mais particulares e concretas, e está
associada a um curto-circuito no ciclo de investimento no "espaço
construído" iniciado no pós-Guerra. A urbanização, processo que
acompanha desde sempre o desenvolvimento capitalista, como atestam o
surgimento das cidades industriais inglesas e a reestruturação de
Paris pelo barão Haussmann, se tornou, explica Harvey, "um dos grandes
negócios sob o capitalismo".
As conexões entre urbanização, acumulação de capital e formação de
crises merecem, segundo o geógrafo britânico, uma análise cuidadosa.
Os ganhos (e perdas) que advêm da criação de novos espaços e de novas
relações espaciais seriam recorrentemente ignorados como "um dos
aspectos fundamentais da reprodução do capitalismo". Para quem conhece
cidades como Pequim ou São Paulo, isso não é novidade.
No centro da crise atual, por diferentes motivos EUA e Espanha viram-
se reféns de modelos em muitos aspectos parecidos, centrados na
expansão do mercado imobiliário, acompanhada de uma transformação das
estruturas administrativas e financeiras que viabilizou um mercado
fundado principalmente no endividamento da classe trabalhadora. A
aposta, no entanto, na "valorização infinita" dos bens imobiliários e
na capacidade de repagamento das dívidas pelas famílias (junto com os
malabarismos financeiros possibilitados pela desregulamentação do
mercado de crédito) levaram ao efeito dominó que derrubou Bolsas e
mercados planeta afora.
O boom imobiliário e a explosão da bolha revelam a tendência real,
para Harvey, do capitalismo global desde pelo menos meados da década
de 1970: queda de produtividade (e da lucratividade dos investimentos
produtivos), acompanhada de um excesso ("surplus") de capital que
precisou ser reinvestido na construção de novos espaços. O
esvaziamento das cidades americanas e a taxa de desocupação de imóveis
novos na Espanha são o resultado dessa movimentação do capital que,
como não raramente acontece, deixa em seu rastro espaços inutilizados
ou devastados.
PÚBLICO E PRIVADO A perspectiva de Therborn também conduz a uma
conclusão um pouco menos abstrata e mais realista do que a de Jameson,
se não exatamente otimista. A pergunta relevante, nesse caso, nos joga
em um campo crucial para as análises marxistas: o jogo entre o poder
público e os atores privados, entre Estados e mercado, e diz respeito
à capacidade do Estado de desenhar e implementar políticas públicas,
sejam elas de coordenação (políticas de desenvolvimento econômico, por
exemplo), sejam políticas sociais (como programas de transferência de
renda).
As décadas recentes "testemunharam sucessos surpreendentes de
políticas estatais", como o controle da inflação e a criação de
organizações interestatais regionais -apesar da persistência do
desemprego mesmo em regiões desenvolvidas como a União Europeia, onde
as políticas de bem-estar têm sido capazes, pelo menos até esse
momento, de proteger os desempregados da pobreza "ao estilo norte-
americano".
Estados nacionais, regiões e cidades diferem, naturalmente, em sua
capacidade de implementar políticas públicas, mas, para Therborn, o
padrão não aponta para uma diminuição geral dessa capacidade.
"Certamente", conclui, "as políticas de esquerda têm tido mais
dificuldade para serem implementadas, mas isso deriva não tanto de
falhas dos Estados quanto da paralisia da coordenação política
resultante de governos de direita" ("conservadores acreditam que o
governo é ineficiente", diz um ditado corrente, "e se elegem apenas
para provar que estão certos").
POLÍTICA A leitura de Jameson, totalizante e antipolítica como o
marxismo filosófico corre o risco de ser, também perde de vista a
multiplicidade de caminhos políticos tomados desde o pós-Guerra. O
Estado de bem-estar social europeu e o Estado desenvolvimentista
asiático, passando pelos "novos" movimentos sociais (as lutas por
direitos civis, o feminismo, o ambientalismo etc.) aos governos latino-
americanos de esquerda, indicam que, como afirma o crítico inglês
Terry Eagleton, Marx "estava certo" [Why Marx Was Right, Yale
University Press, 272 págs., R$ 55,80]. A denúncia e o combate à
exploração, à desigualdade e à dominação são centrais hoje como eram
no século 19.
Ninguém ficaria mais contente com o "fim" do marxismo do que os
próprios marxistas, diz Eagleton. Isso seria sinal de que a tarefa
histórica a que se propuseram -a superação da exploração e da
desigualdade, ou do capitalismo- estaria cumprida. Ironicamente, no
entanto, o marxismo é declarado morto, ou fora de moda, justamente
pelos defensores contemporâneos de um capitalismo que rapidamente
"reverte a níveis vitorianos de desigualdade."
A suposta crise do marxismo, no entanto, é antes reflexo das
transformações sociais, econômicas e políticas das últimas três ou
quatro décadas. Desde o início dos anos 1970, o por assim dizer
"centro" do sistema capitalista -Europa e EUA- assistiu à transição de
suas economias baseadas em manufatura para uma cultura "pós-
industrial" da sociedade do consumo, das novas tecnologias de
comunicação e da economia de serviços. As causas e consequências dessa
mudança podem ser atribuídas ao refluxo dos anos de crescimento
econômico explosivo do pós-guerra, mas também à escalada do
conservadorismo político.
De Margaret Thatcher, no Reino Unido, a Ronald Reagan, nos EUA (e,
para pegar um exemplo regional em versão mais explicitamente
truculenta, Augusto Pinochet, no Chile), os novos conservadores
tocaram o processo de desregulamentação dos mercados, submeteram os
movimentos de trabalhadores a ofensivas legais e políticas e criaram
um suposto consenso contra políticas sociais estatais (que, no caso
dos EUA de Reagan, não deixou de ter contornos raciais e somou-se à
reação conservadora contra o movimento dos direitos civis dos anos
1960). O resultado é um ambiente político que, com a destruição das
lealdades de classe e o estímulo à fragmentação da sociedade civil, é
cada vez mais cínico, administrado e manipulado.
O quadro atual, para Eagleton, faz ainda mais urgente a crítica
marxista: em escala global, "o capital é mais concentrado e predatório
do que jamais foi" e a classe trabalhadora, longe de ter desaparecido,
aumentou em tamanho. Prova disso é o rápido processo de urbanização e
industrialização em curso no sul global.
URGÊNCIA Para Eagleton a crítica marxista, no entanto, não pode
resultar nessa forma bem-intencionada de resignação que é o pensamento
utópico. O marxismo é atual não apenas como referencial teórico para
as ciências humanas ou como crítica filosófica da modernidade -ele
sempre carregou consigo as exigências políticas (e morais) mais
urgentes para a sociedade contemporânea.
No último século e meio, foi capaz de aglutinar os mais diversos
movimentos anticapitalistas, sejam os "tradicionais" movimentos
trabalhistas, sejam os novos movimentos sociais. Se as reflexões de
Eagleton têm algo de pastoral, ou de evangelho de um crente já cansado
demais para abandonar suas certezas, elas reafirmam um conjunto de
princípios -racionalidade, autonomia, igualdade- herdados, sem dúvida,
da tradição iluminista burguesa, mas radicalizados pela crítica
marxista e encampados nas diversas lutas anticapitalistas dos séculos
19 e 20 -e deste século 21.
Se as desigualdades de poder e riqueza, se as guerras imperiais, a
intensificação da exploração e a atuação cada vez mais repressiva dos
Estados caracterizam o mundo contemporâneo, a crítica marxista -cujos
temas fundamentais são exatamente esses- é tanto mais pertinente e
urgente.
"O capitalismo", diz Eagleton, "e não o marxismo, deveria estar fora
de moda." É tempo de abandonarmos o mito de que a "riqueza fabulosa" -
material ou imaterial- que o capitalismo é capaz de gerar estará, no
final, à disposição de todos.
Marx saudava a incubação de um processo de modernização que, embora do
interesse dos colonizadores, não deixaria de beneficiar os
colonizados
A aposta na "valorização infinita" dos bens imobiliários e na
capacidade de repagamento das dívidas pelas famílias derrubou Bolsas e
mercados
O marxismo é declarado morto, ou fora de moda, pelos defensores de um
capitalismo que "reverte a níveis vitorianos de desigualdade"
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